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Terça-Feira , 16 de Agosto de 2022
 
>> O Folclore Vive em Olímpia


Reportagem e texto: Nilva Bianco
Fotos: Marcello Vitorino/Fullpress


É meio-dia de um sábado azul em Olímpia quando o grupo numeroso de homens e mulheres quebra a quietude calorenta do cemitério. As roupas enfeitadas, as fitas coloridas nos chapéus contrastam com a sobriedade dos túmulos de mármore e granito, mas o tom é grave. Vestido de branco dos pés à cabeça, Alessandro Silva Santos leva nas mãos um vaso com flores amarelas que, ao final da procissão até uma das aléias laterais do cemitério, serão depositadas no túmulo do professor José Sant’anna. Amarelo era a cor preferida do maior folclorista da região, morto em 1999. Santana, como era chamado, também teria apreciado a seqüência da homenagem: viola e cantoria pungente ao pé do seu túmulo.

Desde a morte de Sant’anna, em 1999, os grupos folclóricos que se
apresentam no Festival vão ao seu túmulo prestar homenagens


Os responsáveis pela homenagem não são moradores da cidade. Eles, que se dizem ‘filhos’ de José Sant’anna, vieram de longe, do Sergipe, do Pará, do Pantanal, para participar do Festival Nacional do Folclore (Fefol), criado há 40 anos pelo professor. São aposentados, lavradores, estudantes, donas de casa que têm nas manifestações de canto, dança e artesanato uma maneira de expressar seus valores, de viver.

Alessandro, que emocionou-se e chorou ao levar as flores até o túmulo de Sant’anna, veio da cidade de Lagarto, no Sergipe. Ele é um ‘parafuso’, nome da dança cujos integrantes, vestidos com roupas brancas, rodopiam ao som de tambores relembrando as fugas dos antepassados escravos. O rapaz de 18 anos, que é lavrador e cursa o 2º ano do Ensino Médio, diz que está feliz por poder viajar mais uma vez a Olímpia.

A dona de casa e lavadeira aposentada Maria Helena dos Santos, 65, outra moradora de Lagarto, parece tão moça quanto Alessandro ao falar da sua dança, o Samba de Roda Peneirou-o-Xerém, que remete à antiga lida de ralar e peneirar o milho: “dançar é viver”, define Dona Maria Helena, que há oito anos faz a viagem de ônibus entre Lagarto e Olímpia para apresentar-se no Festival. Já Ane Deyse, 20, dançarina da Cia. De Dança Afro Baraka, de Macapá, enfrentou três dias na estrada para chegar a São Paulo e participar do Festival do Folclore. “Vale a pena, é tudo muito bonito. Nos sentimos honrados por terem nos convidado”.

Todos os anos, durante uma semana em agosto, gente como Alessandro, Maria Helena e Ane mudam a cara de Olímpia. Este ano, o Festival do Folclore, o maior do gênero no País, recebeu mais de 60 grupos folclóricos e parafolclóricos de todas as regiões. Entre os dias 8 e 15, eles apresentaram-se para milhares de pessoas na Praça de Atividades Folclóricas Prof. José Sant’anna, chamada pelo moradores de ‘recinto’, e também nas praças, escolas e cidades vizinhas. Aliás, foi numa escola estadual de Olímpia que essa história começou.


• O professor que amava o folclore

• E. E. Profa. Alzira Tonelli Zacarelli

• E. E. Profa. Dalva Vieira

• E. E. Dona Anita Costa

• Até ano que vem, Olímpia



O professor que amava o folclore

Na década de 50, Sant’anna, que era professor de Português, começou a realizar pesquisas e a promover exposições nas escolas em que lecionava, como o antigo Colégio Olímpia e a E. E. Capitão Narciso Bertolino. A iniciativa cresceu, espalhou-se pelos demais colégios da cidade e finalmente, na década de 60, virou festival, ocupando a Praça da Matriz de São João Batista. Hoje, o folclore é parte da identidade e do patrimônio cultural de Olímpia, que há sete anos abriga também um festival internacional, realizado no mês de abril.

O folclore dá celebridade e diferencia a cidade de 45 mil habitantes, que recebe visitantes de cidades vizinhas e outras partes do País. “Gosto de assistir as danças, é alegre, divertido”, diz a estudante Juliana Moreira Pereira, 14, que cursa a 8ª série em Cedral, município localizado a 100 km. Juliana, que assistiu ao festival pelo segundo ano consecutivo, foi com a sua turma conhecer o Museu de História e Folclore Maria Olímpia, considerado um dos mais completos do Brasil.

Maria de Jesus: no ‘coração de mãe’ do Museu do Folclore
de Olímpia já cabem mais de 15 mil itens

O casarão do início do século XX, que já teve fama de mal-assombrado, hoje guarda um acervo estimado em mais de 15 mil livros e objetos. O número é estimado porque está em permanente expansão. O museu é vivo como o folclore, tem ‘coração de mãe’. Sua diretora, Maria de Jesus Miranda, recebe de bom grado todas as doações, por mais estranhas que pareçam. “São manifestações do sentimento de um povo”, diz a diretora, mostrando uma espécie de pandeiro feito com arame e tampinhas de garrafa, doação de um morador da cidade. Uniformes de congada, bonecos gigantes de lendas como o Curupira (que por muitos anos foi o mestre-de-cerimônias do Festival) ou a Mula-sem-cabeça, quadros, utensílios domésticos, cerâmicas e objetos decorativos integram o acervo do museu, juntamente com um verdadeiro tesouro: a biblioteca do professor José Sant’anna, com mais de seis mil títulos e doada à instituição após sua morte.

Grupo de Reisado lembra o professor Sant’anna (na foto)
durante desfile pelas ruas de Olímpia

Estudioso, Sant’anna construiu seu próprio destino, transformando-se num grande folclorista, conhecedor da cultura das mais recônditas regiões do Brasil. Junto, mudou também a história de Olímpia. “Éramos seis irmãos, viemos de uma família remediada, criados em fazenda. Por sorte nossa avó paterna nos estimulou a estudar, e aos 17 anos José já era professor de Português”, conta Clarismundo Sant’anna, que auxiliava o irmão na organização do Festival do Folclore e após sua morte continua envolvido com o evento.

Clarismundo recorda-se que um dos primeiros grupos a se apresentar no Festival do Folclore foi o Terno de Congo Xambá, de São Sebastião do Paraíso (MG). Quarenta anos depois, o grupo, que possui 70 anos de tradição e 230 membros, continua a se apresentar em Olímpia com seus tambores cadenciados, a dança vigorosa e as belas roupas coloridas, adornadas pelos chapéus de fitas. “Somos fundadores do Festival”, orgulha-se sua presidente, Maria de Lurdes Silva, que, este ano, como em todos os outros, ficou hospedada com os demais integrantes em uma escola estadual, a Profa. Alzira Tonelli Zacarelli.



E. E. Profa. Alzira Tonelli Zacarelli

Localizada no Conjunto Habitacional Hélio Cazarini, ‘periferia’ de Olímpia, a E. E. Profa. Alzira Tonelli Zacarelli respira folclore durante o festival. “O folclore está na nossa alma, faz parte da nossa vida, essas danças são algo que fica em nossa memória visual para sempre”, emociona-se a diretora da escola, Eliana Antônia Duarte, contando que, em sua época de estudante na E. E. Cap. Narciso Bertolino, a mesma na qual o prof. Sant’anna dava suas aulas de Português, já participava das atividades do Festival.

A diretora Eliana Antônia Duarte (esq.), e a equipe da escola
(com o grupo Xambá ao fundo): envolvidos com o festival

Na opinião da diretora do colégio, cujos alunos provêm em sua maioria de famílias de baixo poder aquisitivo, o Festival continua a ser tão importante para as crianças e jovens da cidade quanto foi para ela própria. “Acredito que eles passam a se sentir pertencentes a um grupo, aprendem a apreciar a arte e avivar sua sensibilidade. E, principalmente, passam a acreditar que podem transformar suas vidas”.

Membros do Grupo Folclórico e Religioso Moçambique de São Benedito,
de Lorena, alojados na Escola Estadual Alzira Tonelli Zacarelli

Foi assim que sentiu-se João Vítor Luiz, de 14 anos, estudante da 5ª série, quando sua pintura “Em busca da sorte”, de uma carranca do São Francisco, foi premiada na última edição do Salão de Pinturas e Artes Folclóricas, promovido pela Associação Olimpiense de Cultura. João, pai vigia e a mãe doméstica, sonha em estudar Belas Artes em São Paulo, e o prêmio recebido reavivou sua disposição de batalhar para transformar em realidade o que parece impossível.

Como João, a maioria dos 250 alunos da E. E. Profa. Alzira Tonelli Zacarelli participou de alguma maneira do Festival do Folclore. A principal incumbência foi a organização da missa de abertura do evento, à qual tradicionalmente comparecem todos os grupos que chegam a Olímpia. “A cidade inteira tem outro ritmo durante o festival, e a escola também”, diz Eliana. Além de assistir às apresentações dos grupos que visitam a escola, os alunos, orientados pelos professores, realizam pesquisas e entrevistas com os artistas que estão na cidade, montam dramatizações. Além disso, uma manhã da semana é dedicada à fabricação de brinquedos tradicionais, como piões, petecas e bonecas de pano.

Meninas participam da oficina de brinquedos tradicionais da escola
(foto: acervo da E. E. Alzira Tonelli Zacarelli)


E. E. Profa. Dalva Vieira

As duas semanas que antecedem o Festival do Folclore na E. E. Profa. Dalva Vieira são cheios de agitação, com ensaios e até a instalação de uma linha de confecção de roupas e adereços que faz lembrar outras escolas: as de samba, na véspera do Carnaval. Há seis anos o colégio é responsável pelo grande espetáculo de abertura do Festival do Folclore, que atrai milhares de pessoas ao recinto. Este ano, 250 alunos e 40 professores envolveram-se na preparação da apresentação em torno dos 40 anos do evento. “Histórias, historietas, um menino, uma menina, um canto, uma conta, um rosário – uma oração” foi o título da performance, coordenada pela profa. Marise Aparecida Andreu Estábio Feitas de Carvalho.

Durante os 50 minutos da apresentação, os alunos encarnaram sacis para representar as lendas brasileiras, vestiram-se como dragões da independência ao desfilar com as bandeiras de todos os estados participantes do Festival, declamaram poesias em homenagem ao professor José Sant’anna e à criadora do Grupo Olimpiense de Danças Parafolclóricas, profa. Maria Aparecida de Araújo Manzolli, invocaram a padroeira Nossa Senhora Aparecida formando na arena um grande rosário.

As coreografias de vários ritmos folclóricos, como Tamboril, Dança de São Benedito, Congada, Folia de Reis, Bumba-meu-boi e Parafuso foram elaboradas e coordenadas por ex-alunos da escola, que, participando do festival, apaixonaram-se pelas raízes da cultura brasileira.

Para que a coreografia saísse sem erros, foram necessários pelo menos 12 ensaios gerais no recinto, com o acompanhamento de vários professores da escola. Na opinião de Cibele Cristina Carrara Ferreira, uma das professoras envolvidas no trabalho, além de ser uma grande oportunidade para os alunos trabalharem em equipe, o Fefol “também faz com que eles aprendam mais sobre o Brasil e passem a respeitar nossa cultura, nossas diferenças e nossa gente”.



E. E. Dona Anita Costa

Na E. E. Dona Anita Costa, a maior e mais antiga da cidade, com 90 anos, o Fefol serve de base e inspiração ao seu próprio festival. Batizado de ‘Revivendo o Folclore’, ele acontece há sete anos nos dois últimos dias de agosto, mobilizando cerca de 600 alunos de 5ª a 8ª e Ensino Médio. Eles se dividem entre a montagem de estandes que trazem pesquisas sobre temas folclóricos, comidas típicas, artesanato, ervas medicinais, móveis e objetos, além das apresentações de música, dança e teatro.

“A nossa intenção foi oferecer uma abordagem mais didática aos vários aspectos do folclore. Se os alunos vão apresentar um número de dança, por exemplo, antes realizam pesquisas para explicar sua origem e o que os movimentos representam”, diz a coordenadora do projeto, profa. Mônica Moreira da Silva Marreto. Acompanhados dos professores, os estudantes também participam dos workshops ministrados por integrantes dos grupos folclóricos que visitam a cidade e realizam entrevistas que auxiliam no desenvolvimento do seu trabalho dentro do festival escolar.

Nos alojamentos da Escola Estadual Anita Costa,
o descanso depois das apresentações

Um dos méritos do projeto realizado na Anita Costa é a valorização da cultura local. Os alunos do colégio mantêm um grupo de Congada, e um dos maiores sucessos nos estandes montados durante o mini-festival é a ‘Cozinha da vovó’, espaço que recria fielmente as antigas cozinhas da região, com fornos de barro, e no qual alunos e professores preparam quitutes e distribuem aos visitantes – pais, parentes do alunos e a comunidade do entorno, além de estudantes de outras escolas.



Até ano que vem, Olímpia

Durante a semana do Festival, Olímpia pulsa em outro ritmo: além das apresentações dos grupos no recinto e do colorido ir e vir de seus integrantes pelas ruas da cidade, acontecem uma série de eventos paralelos, como o Mini-Festival realizado nas escolas municipais, a Gincana de Brinquedos Tradicionais Infantis, que já acontece há 39 anos, além do Seminário de Estudos sobre Folclore.

Mas talvez o dia mais esperado do Festival seja o último, o domingo. É quando os integrantes dos grupos folclóricos vestem suas roupas pela última vez para desfilar pelas avenidas que dão acesso ao recinto, e os moradores abrem de par em par suas janelas para vê-los passar, entoando cantos de louvor e saudação, dançando e tocando seus instrumentos a caminho da festa de encerramento. Quando o sol baixa sobre a cidade, eles se despedem de Olímpia. Até o próximo Festival, quando voltarão com seus filhos para mostrar mais uma vez a arte que aprenderam com seus pais, e seus pais com seus avós, até a origem da história que eles ano a ano ajudam a relembrar.

Vestido a caráter, o grupo de Congada Xambá
chega ao recinto para a festa de encerramento

Clique aqui para ver a relação dos grupos folclóricos que participaram do 40º Festival do Folclore de Olímpia.




Links:

Matéria sobre o Fefol no site Jangada Brasil
http://jangadabrasil.com.br/agosto/fe12080b.htm

Dicionário de Folclore
http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/diconario.htm