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Sábado , 24 de Setembro de 2022
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Para superar a escuridão e o silêncio


www.estadao.com.br - 06.09.10

Para superar a escuridão e o silêncio

Mesmo sem a visão e a audição, surdocegos aprendem a linguagem; associação aponta 2.750 pessoas com a condição no País

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Como arrancar uma criança surda e cega do isolamento? Como ajudar um adulto que, depois de perder a visão e a audição, não consegue transpor as muralhas sensoriais de seu novo mundo? Há cerca de 50 anos, pedagogos, psicólogos e professores ajudam os 2.750 brasileiros surdocegos - como as entidades pedem para que os portadores da dupla deficiência sejam chamados - a superar o silêncio e a escuridão.


O número, uma estimativa da Associação Brasileira de Surdocegos (Abrasc), só inclui pessoas que tiveram algum acesso à educação e, por isso, figuram nas estatísticas.

Janine Farias nasceu prematura e passou dois meses em uma UTI pré-natal improvisada na cidade de Itabuna, a 440 quilômetros de Salvador. Ao sair do hospital, os pais descobriram que era cega. Com 8 meses de vida, a surdez foi diagnosticada. "Eu me sentia muito sozinha", recorda Samara Farias, mãe de Janine. "Me sentia a única mãe de uma criança surdocega no País."

Com 3 anos, a menina apresentava um comportamento agressivo: não gostava de ser tocada, puxava os cabelos e se mordia. Queria sair de dentro de si, mas não conhecia a linguagem. Ainda não havia palavras no seu universo interior: apenas um turbilhão de sensações e sentimentos sem ordem.

Mas Samara descobriu intuitivamente a principal forma de comunicação dos surdocegos: a libras tátil. O deficiente segura as mãos do interlocutor, que realiza os gestos da língua brasileira de sinais (libras), usada pelos surdos.

A mãe recorda o primeiro conceito que Janine aprendeu: água. No banho, ao matar a sede ou quando abria a torneira, Samara repetia o sinal da água nas mãos da criança. Não demorou para que a garota descobrisse o segredo da comunicação: o sinal representa o conceito. Helen Keller, a famosa surdacega americana do início do século 20, também penetrou no mundo da linguagem pela palavra "água" (mais informações nesta página).

Janine tornou-se ávida pelo aprendizado dos sinais. Partiu dos mais concretos - comida e banheiro - para chegar aos abstratos - tais como saudade.

A palavra serviu para a garota definir seu sentimento quando a mãe visitou o Rio, em 1998, para um congresso do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines). No evento, Samara descobriu que já existiam três instituições em São Paulo especializadas em surdocegueira: a Fundação Municipal Anne Sullivan, em São Caetano do Sul, a Adefav e a Ahimsa, na capital paulista. Ela não estava mais sozinha.

"É impossível estabelecer um padrão para ajudar essas pessoas", explica Shirley Rodrigues Maia, da Ahimsa. "Cada uma delas tem necessidades específicas."

Alguém que perdeu a audição e a visão depois de já ter aprendido a linguagem enfrenta desafios diferentes dos encontrados por Janine e Samara.

A paulista Cláudia Sofia Indalécio Pereira tem 40 anos. A caxumba e o sarampo tornaram-na surda aos 6 anos. A retinose pigmentar roubou progressivamente sua visão. Com 19 anos, no Natal, disse à mãe enquanto a família assistia à televisão: "Não vejo mais nada."

O carioca Carlos Jorge Wildhagen Rodrigues, de 50 anos, nasceu surdo. Ele tem síndrome de Usher, que causa surdez congênita acompanhada por perda progressiva da visão. Com 10 anos, começou a ficar cego. Depois do ensino médio, tornou-se digitador. Trabalhou 11 anos, mas a cegueira obrigou-o a se aposentar. Foi o primeiro aluno surdocego do Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio.

Tato. Cláudia Sofia usa o tadoma para compreender o que as pessoas falam: ela encosta o polegar e o indicador no queixo do interlocutor. Ao ficar surda, aprendeu a ler os lábios. Depois de ficar cega, tocou a boca da mãe em um momento de aflição e descobriu que também era capaz de ler os lábios com o tato. Apenas três pessoas no País utilizam esta forma de comunicação.

Rodrigues utiliza libras tátil e sabe ler em braile. Trabalha em um computador devidamente adapta

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100905/not_imp605502,0.php

Jornal O Estado de São Paulo

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