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Número de escolas quilombolas cresce no Brasil


www.ultimosegundo.ig.com.br - 25.10.10

Número de escolas quilombolas cresce no Brasil

Instituições de ensino que atendem remanescentes de quilombos no País eram 364 em 2004 e passaram a 1696 em 2009

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo |

“Era uma neta de escravos que derrubava até cinco homens com uma rasteira só”. Assim um aluno da 6ª série descreveu Maria Antonia Chules Princesa, a mulher que deu nome à escola onde estuda. Para ele e os colegas, todos de comunidades remanescentes de quilombos no Vale do Ribeira, em São Paulo, a imagem corresponde a de uma verdadeira heroína. A exaltação do negro guerreiro é uma das características de um tipo de estabelecimento de ensino que só apareceu em 2004 e cresce rápido pelo Brasil: as escolas quilombolas.


O que é quilombo e quilombola?

À primeira vista, são instituições comuns, com a mesma estrutura física e disciplinas das outras escolas públicas, mas a cultura em que estão inseridas as difere em público e rotina. Quilombola significa grupo formado por descendentes de escravos foragidos em quilombos. Embora o tema remeta ao passado, em termos de educação é bastante novo. O primeiro Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC) a citar as instituições foi o de 2004, quando haviam 364 delas em todo o País. Agora, já são 1.696.

A demora segue o bonde da história. O direito à terra, que ocupam há séculos, foi garantido a essas famílias apenas pela Constituição de 1988. Ainda assim, mais da metade das 1.453 comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Palmares, ligada ao governo federal, ainda não conseguiu os títulos de propriedade que devem ser dados pelos Estados. Só nas áreas regularizadas, as escolas existentes se tornaram quilombolas e os líderes comunitários puderam exigir a construção de novas unidades, que oferecessem mais do que a precária alfabetização a que estavam acostumados até então.

“Em muitos lugares havia uma casinha onde algum representante de igreja, entidade filantrópica ou deles mesmos davam aulas, e boa parte das crianças saíam da comunidade para ir à escola mais próxima, mas os analfabetos eram maioria”, diz a responsável por Educação Quilombola do MEC, Maria Auxiliadora Lopes.

Quase todos os alunos são negros descendentes de escravos refugiados em quilombos

Socialismo negro

Inaugurada em 2005, a Maria Antonia Chules Princesa, no Vale do Ribeira, é uma instituição estadual, que fica no Quilombo André Lopes, na cidade de Eldorado (SP). Como é a única da região que oferece até o ensino médio, atende às quilombolas vizinhas de Ivaporunduva, Pedro Cubas, São Pedro e Pilões, todas no mesmo município. Pintada com o tradicional verde claro que caracteriza a maioria das escolas do interior, a instituição foi cercada por um muro alto e sem reboque. A diretora, Ligia dos Santos, diz que os quilombolas queriam se proteger do assédio de ONGs e da imprensa. “Eles não deixam fotografar o rosto das crianças e desconfiam de tudo”, conta. Branca, ela foi aprovada para o cargo por concurso, mas teve dificuldade em ser aceita.

“Tudo aqui eles votam. É um socialismo”, diz, explicando que a escola mantém um conselho formado por representantes de todas as quilombolas. Para a escolha da equipe de merenda e limpeza, por exemplo, foi feita uma reunião em que foram definidas as características necessárias. Depois, cada conselheiro promoveu um debate em sua comunidade e voltou com três nomes. Por último, foi feito um sorteio. “Aí, todos aceitaram”, lembra aliviada.

Da mesma maneira, os quilombolas escolheram para administrar a unidade Roseli Dias da Silva, uma professora negra e criada no bairro. Ela foi a responsável pela escola nos dois primeiros anos, até que houve um concurso para a direção e ela não estava entre os aprovados. “Cheguei a ficar um mês fora, mas eles fizeram tanto protesto que conseguiram minha nomeação de volta”, diz a pedagoga que atualmente ocupa o cargo de vice-diretora.

Vocabulário próprio
Hoje, a educadora branca conquistou boa convivência com as famílias negras, mas as diferenças ainda são reforçadas no dia-a-dia. “Às vezes, um menino chega, fala algo

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