Um Portinari quase desconhecido |
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Publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo 06/01/2004 |
Um dos mais belos e monumentais painéis de Cândido Portinari, A Chegada da Família Real à Bahia em 1808, encontra-se exposto permanentemente na sala da diretoria da Associação Comercial da Bahia, mas é praticamente desconhecido do público. Encomendado pelo extinto Banco da Bahia em 1952, a obra faz parte da fase muralista de Portinari. Foi emprestado por comodato há anos pela Família Mariani, proprietária do banco, à Associação Comercial, mas agora pesquisadores, como a diretora do Museu de Arte da Bahia Sylvia Ataíde, querem aproveitar as comemorações do centenário de Portinari para expor o painel pelo menos por algum tempo num museu da cidade. "O quadro é uma aula de pintura e história", resume.
A Chegada da Família Real à Bahia em 1808 suscita polêmica desde que foi mostrado ao público pela primeira vez, nos anos 1950. Críticos cariocas e baianos observaram alguns "erros" na cena retratada. A comitiva Real foi pintada nas imediações do largo da Igreja da Conceição da Praia, na Cidade Baixa. A localização dos edifícios da área não corresponde ao real, "nem nunca se viram navios com tal abundância de escotilhas", escreveu um deles.
Na época, em defesa de Portinari o crítico de arte José Valladares, diretor do Museu do Estado, redigiu uma crônica publicada no Diário de Notícias de Salvador rasgando elogios à obra. "A intenção foi realizar uma pintura em escala monumental em que as preocupações de ordem plástica e pictórica sobrepõem-se às demais", disse, destacando a "rígida organização espacial" do painel, obtida, prossegue "mediante os recursos mais simples de perspectiva e de composição".
Valladares salienta ainda o belo colorido da cena. "Ele transformou o acontecimento no que se costuma chamar 'uma festa para os olhos'." O crítico explica que, na obra, Portinari deu um exemplo de como é possível conciliar o que há de melhor no abstracionismo - suas virtudes puramente plásticas - com um objetivo que mergulha suas raízes na realidade histórica.
Silvia Atayde reforça a qualidade do painel. "A angulação das formas e a utilização da cor como elemento fortíssimo confere harmonia e marcam a obra de Portinari." O restaurador argentino Domingo Tellechea, autor do tratado em três volumes Pintura em Restauro, convidado para conhecer o painel ficou impressionado com a perspectiva do quadro. "Portinari colocou o ponto de fuga num observador fictício situado num plano acima da cena e é por isso que o porto aparece de forma tão marcante."
Medindo 3,82 m de altura por 5,80 m de largura, o painel toma toda a parede esquerda da sala da diretoria da Associação Comercial, acanhando a dependência. Esse também é um dos argumentos dos que defendem a transferência da obra, para que ela seja acomodada num recinto mais amplo, permitindo uma melhor visão.
A presidente da Associação Comercial Lise Weckerle não vê qualquer inconveniente em manter a obra onde ela está. "Embora seja a minha sala quando estou na associação, o local fica aberto à visitação pública diariamente de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17 horas", esclarece. Ela acha importante manter A Chegada da Família Real à Bahia na Associação Comercial, entre outros motivos, por causa do projeto de revitalização do Bairro do Comércio, antigo centro bancário da cidade que vem experimentando uma fase de decadência nos últimos anos, em conseqüência da saída de muitas empresas do local.
http://txt.estado.com.br/editorias/2004/01/06/cad033.html
O Estado de São Paulo
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