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No Sesc, a trilha sonora do sonho guarani


Publicado pelo O Estado de S.Paulo 30/06/2006

Índios lançam amanhã CD com canções de sua cultura, algumas quase extintas

(Jotabê Medeiros)
Eles cantam quando rezam, quando brincam, quando acalentam os filhos, quando plantam, quando colhem, quando curam, quando falam com seus deuses. Ninguém canta como eles, e ninguém ouve como eles, porque certamente seus cânticos fazem muito mais sentido em sua cultura.

Mas é engraçado: ouvindo o CD duplo Ñande Arandu Pyguá, gravado por coros de cerca de 300 crianças guaranis e músicos de 10 aldeias, tudo soa limpo e familiar. Mera impressão: há sons ali, como o das flautas femininas kunhã mimby, que estavam em processo de extinção, e há muito não se ouviam mesmo nas aldeias guarani.

Os cânticos do CD foram registrados em estúdios móveis instalados nas opy (casas de reza) das aldeias Tenondé Porá (em Parelheiros). Os índios, cerca de 140, entre crianças de corais infantis e musicistas, apresentam as canções amanhã, em show no Sesc Pinheiros. Haverá também oficinas de pintura.

Este é o segundo disco de resgate das tradições musicais dos guaranis (que não são "puras", porque parte delas foi apreendida durante vivências com os jesuítas). Em 1999, o projeto Memória Viva Guarani já tinha lançado o CD Ñande Reko Arandu, lançado com show no Sesc Pompéia por 120 indivíduos dos grupos kunhã arandu mirim, tape nhemoexatã, tenondé porã e xondare mirim.

Não havia, até então, registro sonoro dos cantos de reza, fertilidade, batismo, brincadeiras, histórias. acalantos. O primeiro CD e o show fortaleceram o trabalho de pesquisa dos sons e ritmos. No repertório desse novo álbum, além da flauta feminina kunhã mimby, estão os Mitã Monguea (acalantos), com cantos e a fala do cacique e xamoi (pajé) da aldeia Sapukai (RJ), João Silva Verá Miri, além de um tema da Dança do Tangará.

Tangará é um pássaro que quando canta dá pulos para cima. Pedro Vicente Karai Mir diz o seguinte sobre essa dança. "Já era conhecida há muito tempo por nossos avós. Eles já praticavam todas as danças. E as respeitavam como as outras rezas praticadas na opy. Eles aprenderam esta dança com os passarinhos tangará. Não só porque eles cantavam e dançavam durante os acasalamentos. Também por serem pássaros que eles respeitavam porque eram criaturas de Nhanderu e cantavam para ele."

A maioria das faixas é cantada pelos 11 corais infanto-juvenis que representam as aldeias envolvidas no trabalho. Existem hoje no Brasil cerca de 7 mil índios guaranis - numa estimativa, eles podem ter sido quase um milhão no século 16.

O poeta Manoel de Barros, depois de ouvir os cantos reunidos na pesquisa Kosmofonia Mbya Guarani, do paraguaio Guilherme Sequera e organizado pelo brasileiro Douglas Diegues (Editora O Morto q Fabla), disse o seguinte: "Eles (os cantos) me transportaram para os ancestrais, para os fósseis lingüísticos, lá onde se misturam as primeiras formas, as primeiras vozes. A voz das águas, do sol, das crianças, dos pássaros, das árvores, das rãs. Passei quase duas horas deitado nos meus inícios, nos inícios dos cantos do homem." Kosmofonia Mbya Guarani traz, além de um livro com artigos e depoimentos, um CD e transcrições dos cantos indígenas.

Muitos podem achar que se trata apenas de folclore, mas os cantos guaranis, como apresentados nessas obras de resgate, são cultura em movimento. Para Sérgio Medeiros, o resultado evoca os teses de John Cage de "simultaneidade, abundância e também uma saudável anarquia". Poderiam perfeitamente alimentar samples de músicas de Moby ou dos franceses do Air.

"Não abandonemos nossas palavras em nossas casas sagradas, porque quando abandonamos a casa sagrada, nosso pai Ñamandu já não nos escuta", disseram Karai Miri e Karai Kuaray.

(SERVIÇO)Memória Viva Guarani. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. Sáb., 21 h; dom.,18 h. R$ 5 a R$ 10

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O Estado de S.Paulo

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