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Bom dia
Sexta-Feira , 02 de Dezembro de 2022
>> O Professor Escreve Sua História
   
 

Normalidade


Prof ª Ana Lúcia Pinedo dos Santos


Junho. Risadas. A atmosfera quadrangular da sala se transformara num grande círculo efervescente, tal qual aquele onde uma enorme lona se estende, repuxada céu acima; papéis embolados e arremessados assumiam o lugar das pipocas, a ansiedade chega a seu grau máximo. Tudo para aqueles típicos espetáculos de Normanda. Sempre que convidada a responder ao que lhe era mostrado à lousa, criava coragem no instante de sua maior dúvida - tudo talvez girasse na incógnita de seu ser. O código "toque-a-toque" dos colegas era o mais eficiente aviso de que isso era engraçado.

Boquiaberta, braço deslizando do alto, agora era ela quem pedia para falar. Olhar baço, enjaulado em lentes que o tornavam cada vez mais difuso. Na mira da lousa, a lentidão a rotulava por palavras dispersas, sussurradas - lerda... doida... o que a demente vai falar agora?

- Quietos! Agora, se alguém mais ofender a garota, levo imediatamente à diretoria com direito, no mínimo, a uma boa advertência escrita! - exasperou ofegante sua maior defensora.

No vácuo do súbito silêncio, Normanda suspirou, um alívio molhado por sua língua salivante em lábios lentos, quase uma baba, num átimo, a voz saiu alta, como era de costume, numa rajada só:

- Num entendi como que "g" a senhora fala como se fosse a letra "i" .

Era isso. A ingênua, segundo deduções da professora, não conhecia o "y". O enorme eye grafado ao quadro revelava algumas das deficiências que a plasmavam no grande clown da classe, o centro do picadeiro mais divertido, a figura mais inusitada. Como não teria aprendido o alfabeto? Seria um leve ou mediano retardo que a levava a pronunciamentos tão disparatados para a série em que se encontrava? E se fosse mesmo um dito distúrbio, como não teria sido detectado antes? O aspecto desajeitado, a aparência malcuidada, cabelos eletrizados, olhos quase sem piscar.

- Meu bem, a aula está por terminar e (toca o sinal)... bem, explico já, já. Barulheira imensa, carteiras se atropelam, uma mão a segurar o ombro retraído. A explicação é dada, mesmo dona Ângela sabendo que não seria, de todo, assimilada. Resolveu mudar o rumo do assunto, falavam agora de coisas cotidianas. Normanda começou a falar de si, com seu modo tosco e atropelado. Tinha família numerosa, serviço humilde, a noite era dedicada ao estudo. Sentia-se pequena, queria que tudo mudasse. Dinheiro era curto, a esperança era vasta.

- Meu irmão, esse ano, até conseguiu comprar óculos novos e acabei ganhando este aqui dele. Consigo ver melhor assim.

- Mas você nunca foi ao oftalmo... quero dizer, ao oculista?

- Ah, não. Não tem como pagar - noite das descobertas. A conversa ia durar; em meio à sensibilidade, o intervalo foi decisivo.

Agosto. Segunda-feira é triste! Murmura a ladainha daqueles que abandonam a TV, as paqueras noturnas, os passeios, um bom colchão. O reinício, após as primeiras palavras de giz, faz com que a professora olhe todas as silhuetas, dentre as quais uma teve o destaque merecido: uma jovem de cabelos brilhantes, um corte moderno, mechas bem penteadas. Na simplicidade do vestir, uma agradável fragrância feminina exalava da carteira onde se sentava Normanda. O rosto de Ângela, iluminado pelo bom aspecto da aluna outrora rejeitada, fez com que se aproximasse discretamente dela, relanceando seu caderno. A letra, ao contrário do bimestre anterior, se mostrava diminuta, não tão calcada. Falava um tanto mais baixo, copiava as palavras com uma margem mínima de erros. Desenhava, com orgulho, as palavras da língua estrangeira; já não provocava as gargalhadas simultâneas. Os colegas olhavam-na, agora, com um ar de glória, respeito, quem sabe... Algo mudara. Ao levantar a cabeça, Ângela encarou o olhar da moça, torneado por lentes mais espessas, uma armação densa, porém alegre no seu lilás purpurinado. Os olhos bem menores, porém firmes e convictos. Espertos, talvez. Iluminados pelo porvir, pelos contornos retilíneos da vida.


EEPSG "Major Arcy" - Capital

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