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Bom dia
Sexta-Feira , 02 de Dezembro de 2022
>> O Professor Escreve Sua História
   
 

O Episódio da Bolsa


Prof ª. Silvana Vairoletti


Eu ainda não tinha em mãos o meu diploma de professora quando entrei naquela sala de aula, e deparei com um grande desafio: não apenas ensinar, mas enfrentar um grupo de alunos numa escola de periferia, com olhos assustados, querendo assustar.

Na minha primeira aula numa quinta série do curso noturno, tudo era novidade. Numa sala superlotada, inesperadamente, um dos alunos dirigiu-se à mesa, apanhou minha bolsa e, com a expressão de um "marginal", indagou por que ela pensava tanto.

Silêncio. Foi um momento de puro reflexo, que demorou segundos. Eternos segundos. Se eu demonstrasse medo ou insegurança ele iria se sentir dominador, pensei.

Se não respondesse, estaria demonstrando meu desprezo.

Tomei fôlego e com tom forte e voz firme respondi:

- Trago aqui meu calibre 38!

Imediatamente, assustado, o rapaz largou a bolsa e com um olhar admirado virou-se para a sala e comentou:

- Essa professora aqui não é de brincadeira não, gente. Se bobear ela mete bala. Não dá pra facilitar.

Percebi naquele momento que a classe entendeu que não adiantaria se rebelar, fazer terrorismo, me amedrontar. Eu estava ali para ensinar, sem preconceito e sem medo. E eles compreenderam a mensagem.

Daquele dia em diante, enfrentei outros tantos desafios: filhos de alcoólatras, órfãos, viciados, adolescentes sem rumo, que, embora carregassem no olhar a violência, traziam no coração o jeito doce de entregar uma rosa no Dia dos Professores.

À medida que o tempo corria eu buscava métodos para inovar as aulas. Exigia respeito, dedicação e amor próprio.

Passo a passo, comigo, eles foram subindo degraus e de repente aqueles então "favelados" estavam tornando-se alunos.

O ano letivo terminou e fui obrigada a deixá-los. Era como se eu estivesse abandonando meu primeiro amor. Mas fui embora.

Caminhei por outras estradas, ensinei, aprendi e, por opção, retornei àquela que nunca deixou de ser a "escola da favela".

Os desafios continuaram e fui enfrentando um a um.

Dez anos se passaram desde aquele primeiro dia de aula e, para minha surpresa, reencontrei no portão da escola o aluno do episódio da bolsa. Ele já não era mais um menino, mas um homem alto e forte que se dizia feliz por estar trabalhando como segurança numa empresa.

Senti orgulho ao ver aquela "cria" que um dia tentou assustar-me e que, pelo tratamento carinhoso que ora me dispensava, fazia-me perceber o quanto valeu a pena ter sido corajosa naquele dia.

Mas esta alegria não tardou a desaparecer. Dias depois deste reencontro veio a notícia de que o rapaz havia sido morto por uma bala perdida na favela.

Fiquei triste, meio inútil, meio impotente, com a sensação de que me roubaram algo importante.

Que ironia...

Aquele garoto que meio assustado soltou tão depressa minha bolsa, temendo ser ferido por uma arma que nem ao menos existia, foi encontrado tantos anos depois por outra arma qualquer, esta sim que existia, e que o calou sem que ele tivesse a chance de indagar o porquê de ela estar ali!


EEPG "Profª Carolina A. C. Galvão" - Capital

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