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Boa noite
Sexta-Feira , 02 de Dezembro de 2022
>> O Professor Escreve Sua História
   
 

Percepção

Profª. Solange A. Cavalcante dos Santos

Eu tinha perdido a calma com o primeiro Y. Fizeram com que eu declarasse guerra fria contra a sala: onde já se viu, combinar falta coletiva no dia da última revisão de Inglês antes da prova bimestral? Suas notas estavam horríveis, e isso se juntava a outros problemas do primeiro Y: os únicos sete meninos daquela série não conseguiam vencer a timidez entre tantas meninas. Ficavam tão petrificados que não tinham boa assimilação. As meninas, apesar de meigas e risonhas, não tinham sorte diferente, pois ficavam dispersas com seus espelhos, batons, diários e revistinhas teen. E foram elas que tramaram a fuga da minha aula de revisão. Já era outubro, e a coisa estava ficando complicada para eles.

O contraste era o primeiro Z, bem ao lado, onde eu lecionava Literatura. Ah, o fraco de todo professor! Imparcialidade? Nenhuma! Eu não escondia que eles eram meus alunos preferidos. Mais velhos que os demais alunos da escola, muitos eram casados e já trabalhavam. Eleitores de certa data, falavam sobre política com a desenvoltura de quem já se decepcionara, e o melhor: após anos longe dos estudos por várias razões, estavam ávidos por aprender. Compreenderam rapidamente a projeção da complexidade da alma humana nos livros e submetiam-se com atenção reverente às sessões de poesia que eles mesmos programavam. Nesse dia, pediram-me que lesse O Corvo, de Edgar Allan Poe, e ficaram extasiados, pois "o poema era denso, consistente e sonoro". Ah, primeiro Z! Era um sonho lecionar para aquela turma!

Acordei com um "Dá uma chance, professora" no meio do meu caminho, no meio do corredor. Eram cinco meninas do primeiro Y, meigas e risonhas, pedindo que eu lhes desse um trabalho para a Feira Cultural, a fim de ganharem nota extra. Elas não entendiam que nota não era a questão (coisa difícil de qualquer aluno entender). E a assimilação do conteúdo, como ficava? Suspirei, e resolvi: tirei uma cópia de O Corvo dentre meus papéis e dei a elas, recomendando que colocassem o poema em pastas e o lessem para uma platéia, sem cenário mesmo, que já estava bom. Elas estranharam, como se nunca tivessem visto um poema na vida, mas eu não quis ficar para ouvir suas dúvidas: estava exercitando meu lado obscuro de professora, sendo vingativa e autoritária. Afinal, tinha que ser dura com esses alunos.

Dias depois, fui ao primeiro Y, e eles me deram uma relação de quem iria participar da peça. Não entendi: dezoito alunos para ler o poema, três para a iluminação, dois para a maquiagem, quatro para o som? E tinha o Marcelo, que seria o corvo? Perdi a calma de vez. Estavam loucos de pensar que eu iria aceitar aquele trem da alegria estudantil. Nem pensar! Só porque o poema tinha dezoito estrofes, não precisava ter virado uma peça para empregar tudo aquilo de aluno. E o Marcelo, de corvo? Ele mal abria a boca, de tão tímido! E onde estavam as pastas para o poema? Como iriam lê-lo para o público? Por que o primeiro Y nunca fazia as coisas como eu mandava, Deus do céu?

- Mas, professora... alguém choramingou. Não vamos ler. Nós já decoramos o poema inteiro, até a estrofe um do outro, para o caso de alguém faltar no dia. E o Marcelo já arrumou um casaco para ser o corvo. A peça está quase pronta, apesar de coisa que a gente não entende, tipo "busto de Minerva", "taciturno"... Dirige a gente, professora!

O primeiro Y inteiro estava amontoado em torno de mim, com cara de choro: os meninos, tímidos e calados, como sempre; as meninas, tão meigas, não estavam mais risonhas. Tinham até bolado o cenário: seria preto, com velas pretas acesas pelo palco. Iam se vestir de preto, com bocas e olhos pintados de preto. Haveria cadeiras, também pretas, e ao fundo... Tocata em Fuga, de Bach. Era de fazer Roman Polansky se emocionar, e tudo o que queriam era que eu os dirigisse e lhes explicasse o que era o busto de Minerva do poema. Fiquei envergonhada com minha insensibilidade. Deus, eu era um monstro!

Para encurtar, após duas longas semanas de ensaios sob a única direção em que tinham confiado, eles encenaram O Corvo com grande pompa e circunstância, o espetáculo mais bonito de toda a Feira Cultural. Os alunos do primeiro Z também tinha ido ver, e disseram que ficou lindo, que se conseguira captar toda a atmosfera "densa" do poema. Sorri para eles, encantada por sua percepção, e decepcionada com o tanto de percepção que ainda me faltava.


EEPSG "Joaquim Silvério G. Reis" - Capital

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