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Boa tarde
Quinta-Feira , 01 de Dezembro de 2022
>> Entrevistas / Palestras
   
 
Entrevista

Miriam Abramovay


Miriam Abramovay é formada em Sociologia e Ciências da Educação pela Universidade de Paris e tem mestrado em Educação pela PUC de São Paulo. É professora da Universidade Católica de Brasília, consultora do Banco Mundial para assuntos relacionados à juventude e, há três anos, vem realizando junto à Unesco uma grande pesquisa sobre violência, Aids e drogas nas escolas.


ENTREVISTA

>> Gostaria que a senhora falasse um pouco dos resultados da sua pesquisa.
MA>> A pesquisa Violência, Aids e Drogas nas Escolas começou há três anos e foi realizada em 14 capitais brasileiras. Os dados obtidos foram organizados nos livros Violência nas Escolas e Drogas nas Escolas e numa publicação sobre os impactos do programa de Aids e drogas do Ministério da Saúde. Nos próximos meses, lançaremos o último da série: A Juventude e a Sexualidade. Nossa conclusão foi que a escola não é mais aquele lugar tranqüilo como gostaríamos que fosse. Tem um escritor francês que fala que ela deveria ser segura desde o momento em que o jovem sai da sua casa até a hora em que volta. Não é isso o que vemos hoje.

>> Isso significa que a violência não está apenas do lado de dentro da escola?
MA>> Quando falamos em violência nas escolas englobamos também aquela que está no seu entorno, porque mais cedo ou mais tarde ela acaba entrando. São bares vizinhos aos colégios que vendem bebida aos jovens, gangues ligadas ao tráfico, brigas que acontecem lá fora e acabam tendo algum desdobramento do lado de dentro.

>> Quais as principais causas desse fenômeno?
MA>> Em primeiro lugar, existe uma violência que é da sociedade, e não da escola. Ela entra lá por se tratar de um espaço da juventude, cheio de adolescentes curiosos que são vistos como possíveis compradores de drogas. Uma vez instalada lá dentro, transforma a escola num lugar onde vale tudo, onde as regras não são claras e onde professores, diretores e alunos têm medo. Onde impera a lei do silêncio e da ameaça, que é a lei do tráfico. Mas existe também uma violência que é interna à escola, que eu chamo de institucional.

>> Como ela se manifesta?
MA>> A violência institucional é aquela que está no cotidiano da sala de aula, que faz parte do sistema educacional. Se levarmos em conta o fato de que 25% dos alunos já repetiram pelo menos uma vez, ou que a cada ano, 4% são expulsos das escolas, perceberemos que temos um sistema violento, que não está sabendo fazer seus estudantes passarem de ano. Não acho que o problema seja o mecanismo da reprovação, mas as razões que levam a ela. Isso sem falar na frustração que um jovem sente ao saber que dificilmente vai entrar numa universidade, porque as públicas são difíceis de entrar e as particulares são caras. Por outro lado, existem também os gritos, as agressões verbais, a falta de respeito do professor em relação aos alunos e vice-versa, sem falar na questão do racismo. Existe no Brasil o chamado racismo cordial, em que os próprios negros encaram xingamentos como brincadeira. Essas todas são formas simbólicas de violência.

>> O problema da violência nas escolas é mais sério no Brasil do que em outros países?
MA>> Os estudos sobre esse tema ainda são muito incipientes no mundo. Mas comparando com a França, que eu conheço melhor, vejo que no Brasil a violência física chama mais a atenção. Enquanto nas escolas francesas o problema é mais centrado nas microviolências - as incivilidades, os pequenos furtos, os empurrões -, sofremos aqui com ameaças, brigas e depredação. Na nossa pesquisa, detectamos que 14% das escolas têm um alto nível de depredação. Esse é um dado significativo porque tem uma teoria que diz que, se existe um vidro quebrado numa comunidade, ela tende a quebrar os outros. Cria-se uma reação em cadeia que gera cada vez mais violência.
Outro problema que nós temos aqui no Brasil diz respeito às armas. Nos Estados Unidos, quando aparece um caso de arma nas escolas, trata-se de um serial killer, de um caso isolado. Aqui, ao contrário, o problema é em larga escala. Segundo a pesquisa, 13% dos estudantes já viram uma arma nas mãos de alguém na escola. Eles dizem que comprar uma é tão fácil quanto comprar um pirulito na padaria. Mas é lógico que a grande maioria não pretende cometer um crime. Eles querem se exibir, colocar medo e mostrar poder. O problema é que as armas passam a fazer parte do cenário. E todos passam a viver com medo.

>> A violência interfere na aprendizagem?
MA>>
Sem dúvida. Os alunos deixam de ir às aulas, os professores abandonam a escola... Na pesquisa, 31% dos alunos falaram que a violência faz com que a qualidade das aulas piore. E quase metade dos professores se diz sem estímulo para ir trabalhar. A violência tem sim repercussões na qualidade do ensino. E elas são graves.

>> O que fazer, diante dessa situação?
MA>>
Em primeiro lugar, é preciso criar um espaço para discutir essas questões entre educadores, alunos, pais e comunidade. Defendo a idéia de que as escolas tenham um telefone 0800 para que as pessoas se sintam à vontade para se queixar e denunciar. Também acho que deveríamos investir na formação de alunos mediadores, que saibam discutir com seus pares e com os professores. Outra proposta, que o ministro da Educação já anunciou que vai encampar, é a abertura das escolas nos finais de semana. Essa é uma forma de quebrar com a imagem da escola como templo fechado, onde ninguém entra, e passar a vê-la como o espaço do jovem.

>> E o que o professor, mais especificamente, pode fazer?
MA>> Acho que ele tem de abrir a discussão, deixar clara a relação com o aluno, fazer-se respeitar e respeitar o que a turma sabe, tomar cuidado para não ser violento nos seus atos e nas suas palavras. Ele tem de se dar conta de que a questão da violência tem de ser trabalhada diariamente e permear todos as atividades realizadas na escola.

>> Aumentar o policiamento adianta?
MA>> Eu acho que tem de ter alguém na porta da escola, cuidando da entrada e da saída, controlando quem entra, ajudando as crianças a atravessar a rua... Mas, de resto, o lugar da polícia não é na escola. Já vimos casos de policiais que entram nas salas com cães para farejar drogas. Isso é uma coisa muito agressiva. E, além disso, as políticas repressivas já se mostraram pouco eficientes.

>> A senhora disse numa palestra que é possível desconstruir a violência. Conhece algum caso em que isso tenha acontecido?
MA>> Sim, vi escolas violentíssimas serem mudadas num curto espaço de tempo. Tem uma em São Paulo, por exemplo, que era classificada como uma das mais violentas segundo a pesquisa. Depois de um ano, quando voltamos lá, era um outro lugar. Havia entrado um novo diretor, que em poucos meses pintou os muros, criou um horário para que os professores ensinassem atividades extra-classe, construiu uma quadra de esportes, abriu a escola nos finais de semana e deu aos alunos poder para que eles pudessem também participar das regras da escola. Acho que este é o grande segredo: dar voz à juventude.

(Priscila Ramalho)

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